19 de mar de 2011

Luis Serguilha


O poeta português Luis Serguilha, que já esteve na FestiPoa, em 2010, volta para lançar seu novo livro Koa'e (Anome Livros/BH). Aqui, um comentário da professora, crítica literária e tradutora Leda Tenório da Motta sobre a poesia de Serguilha.






Palavra e sombra

Aparentemente, temos aqui o contrário do poeta que não encontra as suas palavras. Já que quem mais fala aqui é a linguagem. Estaríamos diante de uma poesia que arrisca tudo nas palavras. De uma criação do mundo pela palavra. De uma poesia feita de palavras.

De fato, palavras não faltam a Luis Serguilha. Parecem ser bem maiores que a própria vida - se é que há vida antes das palavras -, de tal modo que a encobrem. Buscam saltar para fora da página, assumindo, muitas vezes, a letra garrafal. Fazem estranhos elos que explodem a sintaxe. São exasperadoras porque nada nunca termina de ser dito. Deixam o sentido eternamente adiado. Oferecem o espetáculo do nonsense, do segredo. Tecnicamente, é o Barroco, neste caso, desesperado. Para o riso amarelo de Francis Ponge, diríamos que não se vai aqui muito além do ímpeto, da tentativa, do drama de dizer. O que é uma homenagem prestada ao partido da expressão.

O sentido não está oculto, está ausente.O que faz o seguinte sentido: estamos numa turbulência verbal. Se o hangar é o abrigo no interior do qual se enclausuram coisas, neste caso, nada fecha o buraco metafísico.As palavras são vento, como diria a sabedoria antiga.

Tantas delas assim ao léu parecem criticar a vanidade de nos esforçarmos até as idéias e os sentimentos, o homem e seus problemas, inclusive políticos (lembranças de Saramago!). O poeta de Hangares do Vendaval tem razão de esquivá-los. Em sã consciência, nesta altura dos acontecimentos, quem poria o quê - que questões, de que ordem, que questões de ordem - como se diz nas assembléias - no centro de uma poesia? E quem haveria de lhe cobrar de quê exatamente está falando, e o que foi mesmo que aconteceu?!

 Não podemos saber o que aconteceu. Para tais perguntas enquadradoras não sequer um começo de resposta em Luis Serguilha. O fato, por si só, sugere que se trata de boa poesia. Por mais difícil que seja reconhecê-la, principalmente no calor da hora de sua publicação. Já que, apesar do tormento dessa dispensação verbal sem centro, sem limites, o diferencial aqui é o jorro, justamente, a contundência, a energia. Apreciada _ aliás - desde a experiência brasileira da poesia que sai do traço epigramático, do minimalismo, do jeu de mot concretista, diluindo-o até o cadáver, tanta loquacidade só pode ser vista como salutar.

Mas numa segunda análise, são talvez as coisas e não as palavras que importam. Tratar-se ia da realidade.Do universo simplesmente físico. De uma experiência simplesmente sensível. De uma De Natura Rerum, mas desenfreada.

Agora, estaríamos nos elementos desencadeados, na criação divina (por assim dizer) e não na criação de algum poeta que se tomasse por Deus.A ponto de então nos perguntarmos: seria Hangares do Vendaval um poema cosmogônico, desses que já não se fazem mais? Uma eureka? Uma ciência? Uma máquina do mundo camoniano-drummoniano-haroldiana mais uma vez repensada?

E já que Serguilha confessa guiar-se por alguns artistas da palavra que encamparam o parâmetro das artes plásticas - e não o da música - seria ele, antes que um falador, ou um lírico verborrágico, um pintor do universo, que quer descrevê-lo, apresentá-lo, captá-lo sensualmente, para tanto entrando na interioridade dos objetos de todos os reinos, vegetal, animal, mineral e  industrial? Seria ele um artista plástico que não nega que é conterrâneo e vizinho de porta do fantasma de Camilo Castelo Branco, que se suicidou exemplarmente, ao saber-se fadado a ficar cego, quer dizer, a não mais ver o mundo extra-linguagem, ainda que fosse para melhor interiorizá-lo? Jogaria ele no time dos que pensam que a poesia, como diria Miloz, são algumas linhas e por trás uma imensa paisagem?

A terceira hipótese é: nem um nem outro. Nem palavras, nem coisas! De fato, como tudo aqui é observado de muito  - mas muito - perto, chegamos a descritivismos tais da natureza que, no fim das contas, e por excesso de zelo, tudo vira metáfora. O poeta quer ir às partes mais entranhadas, mais escondidas, mais inéditas do que encontra fora de si. Mas para narrá-las tem que buscar apoio em si mesmo. É próprio de qualquer arte que nada possa dar a ver senão dentro dos seus próprios termos! Assim, a variedade dos fatos externos acaba solicitando virtuosismos verbais que redundam numa natureza desnaturada, imaginária, alucinatória, surreal:os “pássaros esplendorosos dos arquivos”, as “ortografias das corujas”, a “cerveja autografada”, o “burburinho da pedra- pomes”, o “mar das sutilezas vinhateiras”, a “ervagem bicéfala”…

Há aqui o efeito vertiginoso de um choque, de uma telescopagem da enunciação e do enunciado.Assistimos a uma espécie de mise-en-abîme, de que não podemos dizer se rende reflexões sobre a linguagem vista através dos objetos ou o contrário. O fato é que, olhando bem, as coisas reduzem-se às palavras… e vice-versa. Tendo começado na expressão e passado da expressão à experiência e à existência, terminamos num transe enlouquecido.

Apesar da dificuldade extrema de se tirar algo desse perfeito nonsense em que Serguilha se movimenta, aparentemente em busca de algum hangar em que se enclausure, para salvar-se  - para salvar-nos  -  da loucura, talvez se possa arriscar dizer alguma coisa, totalmente no escuro, e interrogativamente, sobre o significado deste seu novo livro.

Por que será que, ao lê-lo, não consigo parar de pensar em A Tentação de Santo Antão de Flaubert? Será que é porque Flaubert, que escrevia romances tão torturadamente como quem faz poesia, nunca achando suas palavras, toma a santa personagem no momento mesmo em que as palavras da Bíblia a levam ao delírio?

Ou será que toda esta catástrofe que não sabemos bem qual é, o que não a impede de ir tomando proporções, ao longo dos 16 passos numerados da via crucis de Serguilha, não se deixaria ler à luz do poema Aubade de Philip Larkin sobre a destruição do mundo: “the sure extinction that we travel to”? Seria este mais um ensaio geral do fim?


Leda Tenório da Motta é crítica literária, tradutora e professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Publicou, entre outros, Francis Ponge- O Objeto em jogo (Imago, 1997) e Proust- A Violência sutil do Riso ( Perspectiva, 2007).

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