23 de abr de 2011

Entrevista com João Gilberto Noll





Noll é um dos artistas mais entranhados ao espaço urbano de Porto Alegre. Amante declarado do centro da cidade, onde mora há mais de dez anos, convive diariamente com as ruas, cafés, cinemas e bares da cidade. Sua literatura, sensivelmente atenta ao espaço urbano, reflete muito da complexidade do homem e do mundo contemporâneo.

Dedicando-se de modo intenso e exclusivo ao seu ofício há mais de três décadas, o ficcionista está cada vez mais afetuosamente ligado ao convívio com a cidade e interessado em celebrar a vida. Ao ser comunicado que seria o escritor homenageado na 4ª edição da FestiPoa Literária, Noll demonstrou entusiasmo e alegria muito grande em receber o reconhecimento de um evento literário que, segundo ele, “tem muito o jeito da cidade”.

Em meio a idas semanais a São Paulo, para ministrar oficina de escrita no espaço cultural O B_arco, e o trabalho em seu novo romance, no final de uma sexta-feira de março, durante uma hora, o escritor conversou, no Café dos cataventos (Casa de Cultura Mario Quintana), sobre seu método de trabalho, linguagem, personagens e assuntos que mais o inquietam atualmente e estarão presentes no seu próximo livro.

Na saída do café, antes de seguir caminho para casa, Noll agradeceu a oportunidade da entrevista e declarou-se contente com a conversa. Nós, seus leitores, também agradecemos.

Esta entrevista, feita por Fernando Ramos, também foi publicada no jornal Zero Hora de hoje. A foto é de Cláudio Santana.

Amanhã, domingo, às 21h30, Noll é o entrevistado do programa Entrelinhas, (TV Cultura).

Noll, você é um escritor do inconsciente, preocupado com o aspecto metafísico do “eu no mundo”. O que primeiramente te move para a escrita?
Tu pegaste o cerne da questão, a respeito do que move a minha escrita. Isso está presente desde a minha infância mais remota. Sempre tive o lado de dentro hipertrofiado, muito desenvolvido. Sou o anti-jornalista. Eu falava muito sozinho na infância, brincava muito sozinho. Isso vai desaguar, na idade adulta, no meu trabalho literário, nessa dimensão muito forte, que é o impacto do eu diante do mundo. No fundo, o eu seria uma vocação para o lírico, que desenvolve muito mais a interioridade do que em outra forma literária. Mas, acho que pela minha ligação muito forte com o cinema, a narrativa entrou. Por isso que não sou apenas, digamos, essa coisa de poeta lírico. Preciso também relatar, contar uma história. Mas isso vem muito mais do cinema do que do romance. Realmente, quando vou ler sempre preciso algo aquém do realismo, pelo menos do realismo mais grosseiro que fica só na exterioridade do mundo, relatando, figurando, imitando um pouco essa avalanche de acontecimentos onde a gente está naufragado. Preciso de outro diapasão, um diapasão mais contemplativo.  Essa dimensão também é o mundo, evidentemente, mas ele aparece através desse fluir do inconsciente. Quando comecei a escrever pra valer, pra publicar, tinha 34 anos. Sempre tendo como projeto mor a escrita. Mas tinha que fazer tanta coisa pra sobreviver que não conseguia realmente me concentrar. Por isso que a partir do terceiro livro eu vim pra porto alegre. Comprei um apartamentozinho aqui, já era alguma segurança pra me dedicar a escrever. Morei dezenove anos no Rio de Janeiro, um ano em São Paulo, escrevi três livros no Rio, mas não conseguia me dedicar como precisava. A grande parte dos meus livros escrevi aqui. Até por ser a minha literatura essa coisa contemplativa que requer uma energia muito forte. Uma concentração natural cavalar.

É por causa da natureza dessa característica da tua escrita, assim mais metafísica, de interioridade, que a novela comporta mais do que o conto?
Acho que sim.

E como leitor também?
Como leitor também, leio muito mais romance do que conto. É como curta e longa metragem. Não sigo com tanta atenção o panorama do curta metragem como sigo do longa, o gosto pela fruição do longa metragem é maior. É por essa natureza mesmo do romance mais contemplativo, os impactos da construção da subjetividade, a dificuldade de se adaptar às ingerências do cotidiano. São essas coisas que compõem a matéria da minha ficção. Esse sentimento de não adaptação. De estar aquém desse movimento célere que o mundo nos impõe. A vida em si impõe um movimento demasiado. Nós vivemos num mundo em que a velocidade é uma qualidade fundamental, e a lentidão é coisa de gente inoperante. Tenho um único protagonista (não há uma continuidade explícita, num livro ele é um vagabundo, noutro um escritor, em outro, ator; adoro a dimensão do ator; é a própria utopia, a possibilidade de você ser o outro; é o que eu almejaria se pudesse), e a problemática crucial desse protagonista que habita em mim, mas que não sou eu. Não sou biografista. Não vivo o que meu protagonista vive. Pode ser uma biografia mental, um desejo de radicalizar a experiência. Já que tudo conspira contra a autenticidade em nosso mundo. E estou descobrindo que, se você for até o miolo na questão do romance, o problema é a falta de autenticidade. O herói romanesco está revoltado, esperneando, porque ele não pode ser autêntico. O romance é construído na ascensão burguesa. A burguesia que vai colocar a importância do indivíduo. Para o bem e para o mal. O valor não está mais no fato de se nascer filho do rei.  E o romance é o gênero que vem daí. É a força do indivíduo aparecendo. É essa questão da autenticidade. Vejo isso em Kundera, Thomas Mann, Cony. E vejo isso em meu trabalho também. Essa revolta contra a impossibilidade da autenticidade. E outra coisa também que me definiu foi que, na época em que me concentrei em escrever pra valer, estava fazendo um tratamento psicanalítico. Eu adorava ir para aquelas sessões pra deixar desaguar o inconsciente. Não pensava nada quando ia para as sessões. No momento em que me deitava, aquilo começava a jorrar. Eu dizia “quero uma vida assim”. Onde a linguagem seja a mola sedutora essencial. O inconsciente, já dizia Lacan, é uma questão de linguagem. Sou um escritor de linguagem. O que me leva é a linguagem, muito mais que o assunto. Não penso em tema, em nada. Quero a voz, mais do que o personagem.  A dramaturgia está na própria linguagem.

Na sua linguagem você trabalha a simultaneidade das situações, e isso se reflete na sintaxe da sua escrita, a sofreguidão do ritmo da narrativa e o ponto final das frases sendo adiado, o que pode ser um ponto final vira uma vírgula. Como é a expressão da linguagem, o sair do corpo, e ao mesmo tempo criar com o corpo, essa concepção da linguagem nos teus livros? Você já falou em algumas entrevistas sobre o caráter de presentificação da arte. Como é isso?
É o que chamo de atrito com o instante. O que me faz escrever é isso. Está lá o instante vazio, e eu vou ter que povoá-lo, a voz urge. Com uma historiografia interna, que seja. Mas que não é uma historiografia biográfica. A proposta é captar essa fulminância. Não de desabafo. Não é uma questão biográfica. É um exercício de captação de uma voz que está presente em determinado momento. Acho que é preciso reconstituir isso aí. É o que você chama de presentificação. Isso que também está bastante presente em Clarice Lispector, por exemplo, no livro A paixão segundo GH. Volta e meia ela fala com “você”. Esse “você” é o leitor. Ela pede socorro para o leitor. A presentificação muitas vezes é você expressar a dificuldade de expressão. Isso também é matéria de ficção. É muito difícil, é uma luta feroz. E seria uma das missões do escritor: deixar essa luta e essa dificuldade em evidência. O que distingue o ser humano de outras formas de vida é a linguagem. Pra te falar sobre um elefante, por exemplo, não preciso ir à África trazer o elefante porque tenho a palavra elefante. Essa possibilidade de você se conectar com o outro através da linguagem acho isso uma coisa a ser saudada com fogos de artifício. E ao mesmo tempo é algo bastante erótico. É você se emancipar da pura animalidade. Se libertar disso, e tentar expor sua alma para a alma alheia. Aí que entra a literatura. Se a literatura estivesse impossibilitada de ser, seria um empobrecimento humano feroz. A literatura é um rito de humanização. É a linguagem na sua quintessência mesmo. Com a palavra poética você reinstaura o mundo, não está só copiando ele. Quanto mais poético é um texto (e a poesia não está só nos versos de um poema; a poesia pode e deve estar na prosa, na ficção), através da disposição e do som das palavras, do ritmo sintático, mais você está reelaborando o significado e o sentido do mundo. A literatura é esse barato por isso.

Você diz que a escrita possui um sentido religioso (não o sentido institucional, folclórico da religião), de cunho litúrgico, é um exercício para que a chama não se apague. Anoto aqui uma frase de Acenos e afagos: “Eu e ele estávamos construindo uma verdadeira saga. Essa história não tinha conserto. Só nos cabia contá-la” Você acha que a história humana é mais a promessa de um afeto, ou a busca de uma voz (narrativa) que traga para consciência humana o que imaginamos ser e o que imaginamos a respeito do mundo?
Acho que são ambas as coisas. A gente não pode viver sem uma certa promessa de afeto, embora o meu personagem central seja um cara avulso, não há familiaridade nos meus personagens no sentido de laços de família, eles são desfamiliarizados. Em Acenos e afagos começa a mudar isso, ali o personagem tem uma família, mas ao mesmo tempo ele precisa morrer para ir à cata do amor dele, que está fugindo de uma situação policial e vai para o Mato Grosso. Sendo que aqui em Porto Alegre ninguém sabe que ele ressuscitou. Quem o ressuscita é a paixão dele. E ele nem estava bem morto mesmo. Não é uma coisa assim tão fantasiosa, enfim. E no final do livro os dois são enterrados próximos um do corpo do outro e o tesão entre os dois teima em persistir. Eles estão debaixo da terra, mas ainda há um sopro erótico ali entre eles. É uma resistência muito grande, ou seja, tesão é vida. A vida luta pra se sobrepor. Tenho horror da morte. Mas, enfim, começo a reconhecer que a morte é inexorável. O afeto, então, realmente, está presente. O personagem consegue o afeto nesse livro. Agora, a voz da narrativa é uma estrutura fundamental, porque você relatar a vida com a função do imaginário (a literatura não é uma cópia da vida) é uma maneira de você resistir. Você buscar um entendimento, um entendimento anímico, não o entendimento matemático. Ou seja, vamos contar, e contar de novo, e recontar a nossa experiência, mesmo que em termos de imaginário. Vamos tentar produzir sentido dessa experiência. Sentido que muitas vezes não há. O ato de estar vivo não tem um sentido. Escrever é uma tentativa de produzir sentido através desse relato ficcional. O imaginário, às vezes, é uma salvação. Você muitas vezes passa pela experiência sem desvendar coisas que estão subterrâneas à experiência. E a literatura vai um pouco nessa linha, ela vai procurar desvendar aquilo que esteve adormecido durante a tua experiência. Revitaliza aquilo que está no ventre da experiência. A literatura vai procurar fazer esse parto dos eventos  que não vieram à tona. Aí entra a função do imaginário, da ficção. É dar novos significados àquilo que foi vivido, e que não deve ser visto como uma coisa consumada porque ela reflorescerá com outras possibilidades de percepção.  O escritor é aquele que vai tentar dar novas significações a essa experiência. Procurar arrancar dela aquilo que não interessa ao utilitarismo da nossa mecânica de vida.

O teu personagem, que é invariavelmente o mesmo homem, quase sempre é extremamente contemplativo. Essa vocação para a contemplação num mundo que, o tempo todo, exige eficiência, produtividade e infalibilidade, é, a meu ver, uma atitude política. Uma das forças da tua literatura é essa postura política, sem precisar se valer de discurso ou ideologia alguma. Lembro muito, ao ler teus livros, da frase “O meu nome não”, que aparece no início do romance A fúria do corpo. Pode comentar esse aspecto do teu personagem?
No mundo da política há questões prioritárias, centrais. As questões centrais são, por exemplo, você contestar o governante. Acho que a minha literatura é mais periférica. Ela está mais preocupada com questões não de refregas ideológicas diretas. Realmente, “o meu nome não” é um atestado de que ali não vai haver tanto psicologismo, mas uma questão política e metafísica. Ali não interessa muito o fato de alguém se chamar João ou Manoel, interessa que possa ser representante de um drama humano. Não será o João ou a Maria quem vai exibir essa questão do drama humano. Mas é uma voz que diz respeito a mais de uma pessoa. Que pode ser interpretada como uma questão política, não uma questão psicológica. Por exemplo, o cara sofreu determinada coisa na infância e essa coisa depois vai desaguar numa questão tal. Não estou preocupado com isso. Assim como não fiz uma fotografia das misérias sociológicas em A Fúria do corpo. E os personagens são mendigos. Não quis fotografar a marginalidade social de Copacabana. Aquela condição marginal é simbólica, diz respeito à condição humana no que tange à necessidade, no que tange à falta. É o meu livro, digamos assim, mais afirmativo. Ali, realmente, o amor luta contra a adversidade e consegue terminar inteiro. Mesmo que os personagens sejam dois mendigos e que lhes falte tudo.

Esse era outro momento da tua vida, há 30 anos, diferente de agora?
Eu andava talvez insatisfeito com o miserabilismo de certa literatura e teatro nacionais daquela época. Estava nascendo para literatura no começo dos anos 80 e já queria, não salvar os dois da miséria social, mas fazer com que eles representem uma falta em diversas dimensões. A demanda amorosa está hiper-presente, e resiste até o fim. Acho que falar da solidão hoje é um grito político. Quer ver coisa mais presente hoje do que a solidão nos centros urbanos? Aqui, nos EUA, Europa, Ásia, onde for. É uma questão nevrálgica. As pessoas estão muito sozinhas. Tentar desnudar isso é um ato político. No livro que estou escrevendo agora, que se chama Virilidade, é onde mais radicalizo a questão da solidão. É tão grande essa radicalização que o personagem começa a ter confrontos com a natureza, com a falta de chuva, a inclemência do sol, com as pedras, a ausência da água, a flor etc. Há diversos momentos aqui na periferia simbólica (não necessariamente geográfica) de Porto Alegre (não dou nome a esses locais, mas são locais um tanto distantes; e os animais vão surgindo: porcos, pavões). E é com esses elementos que ele vai ter que se digladiar às vezes, outras vezes celebrar. É uma posição de total solidão. E ele vai ao encontro de outras espécies, de bichos. Acho uma questão super política você falar da solidão hoje. Não é descrever estados d’alma. É descrever uma questão que está entranhada na sociedade: solidão. A comunicação difícil, pedregosa, às vezes impossível, a deserção.

Neste livro o personagem busca uma saída pela natureza?
Sem dúvida. É o que resta, então vamos lá. Embora a criatura humana parece que está querendo retornar.

O que você precisa para começar a escrever? Uma palavra, frase, idéia, um título, o que te estimula no início?
Vou para a escrita em estado de vazio. É, ali, no atrito com o instante que as coisas vão se dar.

O que te puxa pra escrita, nesse início, assim no momento de começar a escrever um novo livro?
Começa com uma mancha, uma coisa fluindo de dentro. Esse personagem, cuja alma é a mesma em todos os meus livros, não tem rosto. Vejo uma mancha mesmo. As coisas começam com uma mancha. Talvez seja o lado cinematográfico da coisa. Uma mancha em movimento, ou calma, ou fugindo, ou provisoriamente no encanto amoroso.
Acho que é uma coisa contraditória. Ele tem a ânsia pela solidão. Ele não quer os contatos burocráticos. Se ele é tão só em quase todos os meus livros, então ele escolheu. Embora tenha a consciência da demasia desse isolamento. Por isso contraditório. Mas acho que reviver a questão humana sem o sentimento da contradição é muito pouco, não?

E o título deste novo livro, Virilidade?
Esse título apareceu muito cedo desta vez. Geralmente, os títulos dos meus livros aparecem mais no final. Acho o título bastante coerente com tudo que já fiz. É um dos temas fortes da minha trajetória literária.

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