22 de mar de 2012

Sérgio Sant'Anna

O autor de Confissões de Ralfo (1975), dividirá mesa com Joca Reiners Terron e César Aira, tradutor de seu livro Crime Delicado na Argentina. Neste vídeo, para o programa Entrelinhas (tevê Cultura), Sérgio fala sobre seu mais recente romance, O livro de Praga.





Aqui trechos da entrevista concedida ao jornalista Luís Henrique Pellanda em outubro de 2011 no Paiol Literário, projeto promovido pelo jornal Rascunho.

"A literatura é um ato de prazer e não deve ter segundas intenções"

Evolução entre irmãos
Quando comecei a pensar em escrever, fiz o que todo mundo faz: aqueles poemas que não mostramos a ninguém. Por isso, eu gostava tanto de ler Drummond. Por não seguir nenhuma forma rígida, ele me dava a impressão de que qualquer um podia ser poeta. Eu achava muito difícil aprender coisas como a rima, por exemplo, e até hoje não sei a sua musicalidade. Mas só então passei a pegar pesado mesmo. Minha irmã, a Sonia (Sant’Anna, escritora), quatro anos mais velha do que eu, começou a ler, cedo, autores como Kafka, Sartre e Simone de Beauvoir. Fui atrás dela e, de repente, já estava por mim mesmo. Também li a geração beatnik, porque aprendi a ler em inglês — e em francês — relativamente cedo em minha vida (o pai de Sérgio, quando o filho tinha 12 anos, passou uma temporada a trabalho na Inglaterra). Na minha casa, também havia muitos pocket books. Comecei a ler Hemingway, Faulkner e, claro, com o passar do tempo foi havendo uma evolução. Como eu já tinha vagas pretensões literárias, fui chegando às coisas mais difíceis. Não digo que eu conseguisse absorver tudo de Kafka, por exemplo, mas minha casa foi um pólo irradiador disso. Chegamos cedo a essas pessoas. Mesmo o Ivan (Sant’Anna, escritor, também irmão de Sérgio), que faz uma literatura mais best-seller, de ação, estava nesse ambiente.

O concurso

Eu tinha uma insegurança muito grande. Como quase todo mundo tem. Você tem vontade de ser escritor, mas não sabe se tem talento, se tem a capacidade. E, lá na faculdade de direito onde eu estudava, um lugar que concentrava muita gente que gostava e escrevia literatura, houve um concurso literário de contos. Foi para entrar nele que consegui terminar um conto pela primeira vez. O concurso abrangia a faculdade inteira e eu fiquei em segundo lugar. O Humberto Werneck ficou em primeiro. (…) O júri, formado por Murilo Rubião, Afonso Ávila e Ildeu Brandão, ao mesmo tempo em que apontou os defeitos do meu conto, colocou ali as suas qualidades. Aí pensei: “É, vou tentar mais um pouco”. Eu nem era tão novo assim. Meu primeiro livro saiu quando eu tinha 27 anos. Na época do concurso, eu devia ter uns 25.

Verdade interna
Mais tarde, passei por um processo de transformação muito grande. Meu primeiro livro (O sobrevivente) é um livro muito para dentro, muito subjetivo, muito intimista. Depois, em razão de algumas viagens, de algumas convivências, da abertura do meu campo cultural, me soltei mais. Mas, naquele meu primeiro conto, já havia um embrião do que eu faria depois. Tanto que terminei um conto recentemente e pensei que ele mesmo tinha algo a ver com aquele primeiro. Uma determinada força que me interessava, uma força dramática. Há um tipo de intensidade que, normalmente, a literatura precisa ter, e que é uma coisa pessoal, uma força que cada um de nós tem. A literatura pega o leitor muito por essa verdade interna. Suponho que, com aquele livro do Cristovão Tezza, O filho eterno — que ainda não li —, deva ter acontecido isso. O leitor costuma reconhecer aquilo que é verdadeiro.

Sexo, morte e estética
É como se houvesse dois caminhos: esse negócio de sexo e morte. São temáticas que vivem dentro da minha personalidade e, talvez, dentro da própria literatura. São experiências humanas muito radicais, muito profundas, e que mexem com todos nós. Agora, em relação a minhas experiências estéticas, com o decorrer de uma formação que busquei, com minhas viagens — que me influenciaram muito —, acabei me interessando, como espectador, por pegar coisas de outra arte e procurar aquilo na minha literatura. Então, leio e gosto muito de ler livros de arte. Gosto muito de ler ensaios sobre arte. E há toda uma vertente do meu trabalho que lida com isso. Tanto que, no livro O vôo da madrugada, há uma parte, no final, que se chama Três textos do olhar. São textos sobre experiências visuais e estéticas.

Para ler a entrevista na íntegra acesse aqui.