28 de mai de 2011

Laerte e Paulo Scott

                                            foto: Renato Parada


Laerte, um livro como este feito pelo coletivo Dulcinéia Catadora, que passa longe dos ipads, ebooks, etc, sendo confeccionado por catadores de papel e seus filhos e vendido a 5 reais o exemplar, que significado tem pra ti?
Não tenho grandes problemas com os e-books. Acho que eles não brigam com a existência de trabalhos artesanais. Quero que os catadores possam ter acesso a esses equipamentos, também. Fora isso, acho sensacional o que vi do Dulcinéia.

Como foi dialogar com os poemas do Scott, foi desafiante, houve sintonia, atrito, provocação? O que a poesia do Scott mais te provocou no momento de lê-la e partir para o desenho?
Foi não só desafiante como muito estimulante. Eu estava há alguns meses numa espécie de “período sabático” em relação às minhas tiras, republicando antigas - e este contato com o texto do Scott me deu vontade de desenhar tiras novas.

O desenho e a música provavelmente são as expressões artísticas que atingem a emoção do expectador/ouvinte/leitor de forma mais direta. No encontro palavra/imagem é diferente um pouco. Pode comentar esse encontro palavra/imagem dos teus trabalhos com os do Scott, o encontro das narrativas de vocês dois?
Não tenho certeza sobre isso, a respeito do desenho e da música. O que quer dizer “de forma mais direta”? Se for relacionado ao fato de que podem dispensar o uso de palavras, não concordo com a tese. O texto do Scott é complexo e emocionante, pra mim, como algumas músicas o são…ou como alguns filmes, ou desenhos. Do ponto de vista formal da linguagem, não sei muito o que dizer sobre essa interação. Tentei me deixar guiar, ao dar o “pongue” pro “pingue” dele, pelo estímulo o mais livre possível. Não tentar ilustrar, mas confabular.

Como você vê a narrativa dos seus trabalhos hoje? É muito diferente de trabalhos seus de, por exemplo, vinte anos atrás?
Engraçado - eu venho tentando, justamente, uma reaproximação com alguns procedimentos narrativos de 40 anos atrás. Acho eu o modo com que trabalhava há 20 anos pertence a um ciclo já encerrado - o que não quer dizer que eu me proíba revisitá-lo quando seja o caso…




                               foto: Renato Parada


Scott, um livro como este feito pelo coletivo Dulcinéia Catadora, que passa longe dos ipads, ebooks, etc, sendo confeccionado por catadores de papel e seus filhos e vendido a 5 reais o exemplar, que significado tem pra ti?
Não conheço escritor brasileiro que não ficaria honrado com um convite do Dulcinéia Catadora, ainda mais numa situação desta de co-autoria com o Laerte. Dulcinéia desenvolve um projeto de integração e diálogo como nenhuma outra editora no Brasil faz, agrupa o que há de melhor na produção literária contemporânea com pessoas historicamente marginalizadas pelo Estado brasileiro e seus governos fomentadores da desigualdade social (pela fome e, sobretudo, pela falta completa de uma educação escolar de qualidade). Os governos brasileiros não querem formar cidadãos, não querem gente que possa questioná-los. Nesse universo, iniciativas como essa, do Dulcinéia, são mais do que alento, são a prova de que com pouco, hoje, agora, já é possível muito.

Dialogar com os desenhos do Laerte foi um desafio e uma alegria muito grandes, imagino. O que a arte do Laerte mais te provocou no momento de vê-la e depois partir para a escrita?
Embora Laerte seja, de fato, um dos heróis vivos da minha geração (um cara que, além de ser gênio, mostra a todos o que é ser um sujeito do seu tempo, generoso, desafiador, sem ter de recorrer à vaidade, clubinhos, alianças e joguinhos que daqui a dez anos ninguém lembrará mais), não foi desafio, foi um prazer puro. Esse foi o terceiro trabalho que fizemos juntos, houve duas edições do projeto Na Tábua, que criei com o Fabio Zimbres, antes. Foi alegria enorme enviar poemas para ele ilustrar e poder escrever poemas a partir do que ele me enviou. Escolhi sete ilustrações dele, e ele escolheu sete textos meus, a partir disso aconteceu o diálogo: trocas de emails e conversas por telefone. Foi uma honra enorme. Não tenho nem como agradecer o convite.
Vou dizer uma coisa que pode até soar arrogante, mas não é. Juro. Não fiquei tão impactado por receber as ilustrações do Laerte, as que ele me enviou, nem tão impactado ao ver o que ele criou (ou selecionou) a partir dos meus textos. Explico. A obra do Laerte é uma das grandes influências, possíveis de serem detectadas em tudo que faço, principalmente na poesia, onde tenho a insanidade de dizer, o tempo todo, que consigo andar com o mais absoluto destemor. Laerte pauta meus padrões, pauta minha estética, sou fã há anos do que ele cria, deixa todo mundo pra trás. Sou fã de vários ilustradores brasileiros (Luiz Gê, Pedro Alice, Jaca, Fabio Zimbres, Alemão Guazzelli, Rafael Coutinho, Eduardo Medeiros, Angeli, para citar alguns), mas, sem querer atingir a vaidade de ninguém, nenhum deles chegou perto do que o Laerte faz, do que o Laerte consegue fazer. Uma querida amiga com quem tenho especial intimidade, uma produtora de cinema que já trabalha com Laerte há alguns anos, disse que somos dois autores que lidam bem com elipses; disse que o casamento entre essas elipses ficou perfeito. Como ela me conhece como poucas pessoas, vergonhosamente envaidecido (quem sou eu nesse mundo de caras, dos caras que citei, tão absurdamente talentosos?), tive de concordar.
 
O desenho e a música provavelmente são as expressões artísticas que atingem de forma mais direta à emoção do expectador/ouvinte/leitor. Comenta um pouco esse encontro palavra/imagem do teus trabalhos e do Laerte.
Não tem muito que dizer. Mesmo sem empregar a escrita, Laerte é um narrador muito melhor do que eu, sua obra é uma referência poderosa, ele é um verdadeiro mestre. Suas ilustrações são mais do que meus textos. Espero que meus poemas possam ser boas companhias.








quando bem pouco do mundo
sobrar, as formigas e as baratas
acharão entre os nutrientes
da tinta a nova doçura fúngica
(falsa como a preservação)
e retirarão das folhas de cheque

o sal






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