28 de mar de 2012

Literatura, pão e poesia

Sérgio Vaz é poeta e articulador cultural. Mora em Taboão da Serra, zona sul da periferia de São Paulo, e vive também nas periferias do Brasil. Autor de, entre outros, Subindo a Ladeira Mora a Noite, A Margem do Vento, Pensamentos Vadios, A Poesia dos Deuses Inferiores e Colecionador de Pedras, é criador da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia) e um dos idealizadores do Sarau da Cooperifa, evento que transformou o bar Zé Batidão (Rua Bartolomeu dos Santos, 797 Jd. Guarujá, na periferia de São Paulo), em centro cultural, e que, às quartas-feiras, há mais de dez anos, reúne em torno de 500 pessoas para ouvir e falar poesia (“A periferia não tem museu, não tem teatro, não tem cinema. Mas tem boteco, então transformamos o bar do Zé Batidão em centro cultural”, diz Vaz). E que também se transformou num dos maiores quilombos culturais do país. É a mais autêntica democracia do uso da palavra, segundo Heloisa Buarque de Hollanda.
Vaz é autor dos projetos "Cinema na Laje", "Poesia no ar" e "Poesia Contra a Violência" que percorre as escolas da periferia incentivando a leitura e criação poética como instrumento de arte e cidadania. Vaz é um gigante e incansável batalhador pela literatura e cultura. Já há algum tempo os trabalhos que desenvolve vem fazendo uma revolução cultural que atinge dezenas de milhares de pessoas, não só em São Paulo, mas em diversos lugares do país, por onde ele passa com sua incendiária verve e ativismo transformador.

No dia 30 de março, sexta-feira, às 19h, na livraria Palavraria (rua Vasco da Gama, 165, Bonfim, Porto Alegre), Sérgio Vaz lançará Literatura, pão e poesia - Histórias de um povo lindo e inteligente (Global editora, coleção "literatura periférica"), seu mais recente livro: uma coletânea de crônicas, textos poéticos e de opinião e indagação sobre a vida na periferia, a relação entre centro e periferia e reflexões sobre políticas culturais, sociais e urbanísticas contemporâneas - "a literatura do morro arranhando os céus da cidade". A seguir um dos textos do livro.


Manifesto da antropofagia periférica

"A periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.
A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula.
Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.
A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar.
Do teatro que não vem do “ter ou não ter…”. Do cinema real que transmite ilusão.
Das Artes Plásticas, que, de concreto, quer substituir os barracos de madeiras.
Da Dança que desafoga no lago dos cisnes.
Da Música que não embala os adormecidos.
Da Literatura das ruas despertando nas calçadas.
A Periferia unida, no centro de todas as coisas.
Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala.
Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.
É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que armado da verdade, por si só exercita a revolução.
Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona.
Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.
Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado.
Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles? “Me ame pra nós!”.
Contra os carrascos e as vítimas do sistema.
Contra os covardes e eruditos de aquário.
Contra o artista serviçal escravo da vaidade.
Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.
A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.
Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.
É tudo nosso!"
(setembro/2007)