26 de abr de 2012

A licença poética do riso


   *  João Pedro Wapler        


O humor é um gênero complicado. Soar engraçado, irônico ou sarcástico exige do autor um dom e uma técnica sutilmente apurada. Fazer o outro rir é uma das artes mais difíceis para um artista. No caso da literatura, o humor torna-se ainda mais delicado de se lidar, pois temos apenas a palavra como plataforma de criação.  Especificamente a prosa possibilita ao autor criar frases, parágrafos e capítulos, desenvolvendo seu raciocínio criativo de uma maneira que, aparentemente, alguma pitada humorística tenha menos chance de dar errada. Já na poesia, dispomos de versos e estrofes, normalmente curtos, assim é imperativo para o autor uma maior sagacidade: não temos tantas linhas assim para remeter ao riso.  
            Dentro dessa vertente da seara literária, a FestiPoa gerou um encontro atraente no último sábado. No evento intitulado Poesia: humor: liberdade: linguagem, o poeta Diego Petrarca mediou um bate papo na Casa de Teatro de Porto Alegre entre os também poetas Diego Grando e Gabriel Pardal. A conversa girou em torno da arte de se fazer versos com liberdade, inteligência e humor, três ingredientes de difícil conjugação quando tratamos de literatura versificada.
            Grando é gaúcho e recentemente lançou seu segundo livros de poemas, Sétima do Singular. Pardal é baiano e também lançou há pouco o título de poesia Carnavália. Os dois poetas, cada um à sua maneira, sabe lidar muito bem com o riso em suas criações. O primeiro de maneira mais implícita, através de uma fina ironia, já o segundo, despudoramente, através de uma linguagem explicitamente cômica.
            Em Sétima do Singular, vemos um apuro técnico que remete a um dos ídolos do autor: Apollinaire. Os poemas são estruturalmente muito bem delineados. Grando também busca em outro mestre, Carlos Drummond de Andrade, uma bagagem discursiva invejável, incrementando sua técnica com um texto imageticamente belo.
Carnavália segue um caminho diametralmente oposto, apostando na desconstrução estrutural e num discurso mais direto e entrecortado, onde encontramos ares de Paulo Leminski e de alguns autores da canção popular brasileira, por exemplo.
            Na conversa descontraída guiada com esperteza por Petrarca, notamos o tom do texto de cada poeta em suas próprias falas. Pardal abria pouco a boca e quando dizia algo arrancava risos da plateia. Diego usou bastante o microfone, desenvolvendo raciocínios irônicos que também prenderam a atenção de quem compareceu ao local. Duas espécies de humor diferentes: o primeiro mais elíptico e o segundo mais argumentativo.
            O legal de tudo isso é ver que a literatura não deve ser levada tão a sério, mas com mais leveza, para não ficar, enfim, chata. Literatura não precisa começar com letra maiúscula para ser respeitada. Ele, antes de uma disciplina escolar, deve fazer parte da língua do povo. Os dois poetas de dois lugares completamente distintos do país, provaram que uma pitada de humor à moda de cada um, só aproxima mais as pessoas do universo das letras e dos versos. 

* Poeta, ator e jornalista.