22 de abr de 2012

O melhor de César Aira


Com dezenas de livros lançados e traduzidos ao redor do mundo, o argentino César Aira tratou de desfazer a imagem de escritor prolífico e abalar qualquer outra certeza que se pudesse ter a respeito de sua obra em entrevista ao escritor Joca Reiners Terron. O encontro aconteceu na Casa de Cultura Mario Quintana, com o auditório lotado e atento. Confira abaixo os melhores trechos dessa conversa:

Influência brasileira

Traduzi Sérgio Sant’Ana, e acontece dos tradutores se aprofundarem nos livros e vê-los em tudo que têm de espetacular. Por isso, gostaria de seguir traduzindo O vôo da madrugada. Há um fundo dramático especial na literatura do Sérgio, um espanto, um horror, um peso em seguir vivendo. Sobretudo O vôo da madrugada tem isso, inclusive porque foi escrito em meio a uma crise pessoal.

Para mim, a literatura brasileira é a mais rica do continente sul-americano. Foi até mesmo um problema para mim quando li Guimarães Rosa: era um escritor tão monumental, tão grande, que me deixou desolada, que não valeria tentar escrever, juma vez que jamais seria capaz de fazer algo como Guimarães.

Dalton Trevisan também segue sendo um dos meus favoritos. Mas João Gilberto Noll, passou por mim e foi tão aterrador como Guimarães Rosa. Pensei: eu deveria ter escrito aquilo. Não sei como me exorcizar essa sensação agora, sobretudo a sensação que veio a partir de A fúria do corpo – espero que algum tradutor argentino consiga fazer justiça a esse trabalho.

Escrever = desenhar

Tudo que escrevo tem um componente visual muito grande, intuitivamente busco que o leitor veja o que vejo na minha imaginação. Por isso uso a linguagem mais neutra possível.

Escrevo muito pouco e muito lentamente – um parágrafo ou dois, no máximo meia página por dia. Mas como os dias são muitos e os meus livros são curtos, não há problema. Comigo me parece mais como um desenho, tenho papéis chineses bons, canetas... São imagens que vou descrevendo. Para mim, me parece mais com o ato de  desenhar do que escrever.

Exige um método? Não sei. Eu muitas vezes, quando estou escrevendo, improvisando, me dou conta de que cometo erros, me meto em becos sem saída, mas sempre tenho a confiança de que no fim tudo vai dar certo por fé na literatura. A literatura é quase como uma deusa que protege os escritores.

Qualquer um pode escrever muito. Literatura é uma questão de qualidade e não de quantidade. Sou ruim com os editores, que querem que acompanhem a confecção do livro. Quando entrego o livro a eles, digo que façam o que quiserem com a capa, com a tipografia...

Nunca tive muita confiança em  mim mesmo. Sempre que termino alguma coisa, penso: que desastre eu fiz! E gosto muito das editoras pequenas, me dá vergonha de mandar a editores grandes. Na Argentina tudo é grátis, você praticamente dá os livros aos editores, mas aí vem os editores alemães e me compram. Então fico com o melhor dos dois mundos: a boemia do autor jovem, e o reconhecimento exterior que rende dinheiro.

Literatura como atividade artística

No discurso público, nunca se fala como literatura como uma atividade artística, parece sempre visto como um nobre veículo de idéias e ideologias. Só quando encontro autores de verdade é que me volta essa sensação de atividade artística. O romance não é um veículo para valores, é injusto com a literatura que a usem como um mero veículo de prestígio para ideologia, porque esse prestígio vem de autores que não estavam preocupados com isso, como Kafka ou Borges.

Agora tem essa onda de fazer romances dedicados aos dramas que aconteceram durante a ditadura militar. É um modo de ganhar dinheiro que me parece obsceno, pois é fazer dinheiro com quem sofreu tanto.

Aprender a escrever

Por que escrever? Não há resposta diferente de “porque quis”, “porque sim”, “porque não gosto de trabalhar”. Há tantos modos engenhosos de responder, mas são todos mentirosos.

Como escrever? Escrever bem, é a única resposta. Por que algumas pessoas ruins têm talento e escrevem bem, e outras honestas não? Acho isso um pouco injusto. Oficinas literárias podem ensinar a escrever bem, mas não a escrever. Escrever é uma decisão vital. Escrever, no sentido forte, é outra coisa que não há oficina que consiga ensinar.

O que escrever? Também há uma armadilha aí: não se pode buscar o que não podemos fazer, o que não nascemos para fazer. Lembro de um amigo meu que tinha nascido como poeta, tinha todas as características de poeta, como se pegar à palavra com tanto amor que muitas vezes não consegue pensar de um modo mais raciona, mas ele tentou ser crítico literário. Acabou não sendo nada. Virou publicitário. É preciso tomar cuidado consigo mesmo, somos nossos maiores inimigos na hora de escrever.

Fotos: Ana Mendes