13 de abr de 2015

"Os doentes em torno da caixa de Mesmer", de Léo Tavares



Vencedor do concurso Contista Estreante, promovido pela FestiPoa Literária e pela editora Modelo de Nuvem, Léo Tavares lançou, em 2014, seu primeiro livro, Os doentes em torno da caixa de Mesmer. Nascido em 1984, em São Gabriel/RS, o escritor mora em Brasília desde 1999. Foi lá que se tornou bacharel em Artes Plásticas, pela UnB, onde agora pesquisa, para seu mestrado, as relações entre a escrita e a visualidade.
Não por acaso, os contos de Os doentes encontram-se repletos de imagens expressivas, às vezes duras, que, de modo conciso, criam na mente do leitor atmosferas e cenários precisos, ao melhor do gênero. São imagens que, no entanto, podem ser vistas, também, como matéria propícia à poesia.
Léo Tavares vem a Porto Alegre para lançar seu livro na 8ª edição FestiPoa Literária e participar de debate durante o evento. Nesta entrevista, o escritor revela detalhes de seu livro e do caminho percorrido até tornar-se escritor.

Júlia Corrêa


- Tu és bacharel em artes plásticas. Como se deu a aproximação, entretanto, com a literatura? Como tu enxergas a relação entre essas duas linguagens?
Na verdade, a literatura veio antes. Comecei a ler muito cedo, e a escrita começou logo em seguida, desde os doze anos. Durante a adolescência eu dizia que queria ser escritor, que escrever era a coisa que eu mais gostava. Preenchia cadernos e cadernos com romances bastante melosos, folhetinescos, e esses cadernos passavam de mão em mão entre os amigos e os colegas de escola. Mas já adulto veio um interesse muito grande pelas artes visuais e eu senti que precisava me aprofundar nas imagens, que a escrita sempre seria algo constante na minha vida, e que o meu estudo em arte acabaria, de alguma forma, empapando o texto. Assim tem sido, de maneira cada vez mais evidente. Em um momento da minha graduação comecei a perceber a potencialidade visual da escrita e a partir daí as duas linguagens foram se entremeando. O diálogo entre arte e literatura passou a ser o centro do meu trabalho visual e a minha pesquisa de Mestrado orbita em torno desta confluência. Minha produção artística sempre contou com a presença do texto, de uma forma bastante obsessiva, tanto que as únicas figuras existentes nos meus trabalhos visuais são as palavras.

- Lendo alguns dos teus contos, é possível perceber o uso de imagens bastante expressivas (como em "A noite estava aberta tipo ferida de faca"), o que parece revelar um trabalho de prosa poética. Além do mais, são contos relativamente curtos. Tu concordas que há essa aproximação de gêneros?
Concordo. Esta aproximação entre a poesia e a prosa é intencional, e eu diria que inevitável, talvez em grande parte porque as imagens que pedem passagem na construção destes textos vêm, geralmente, de uma atmosfera de sonho, de idealização, ou de negação de um relato mais direto, informativo. Em outras palavras, as imagens para mim são sempre rebuscadas, e assim a linguagem escrita é uma tradução que necessita estar em consonância com essa natureza. Creio que estou mais interessado em encontrar formas de trazer à tona impressões, estados de espírito, do que em simplesmente contar uma história, daí a prosa poética. Também escrevo poesia, mas às vezes ela me parece um campo inóspito para transcrever certas ideias, como se o verso estancasse antes da hora algo que está em curso. Acho até que se poderia dizer que os meus textos são poemas que optaram pela prosa, estão no caminho do contra-verso, que é como a escritora Maria Esther Maciel chama o fragmento de discurso que é intrinsecamente poético, mas que se recusa ao corte do verso, e acaba se hibridizando em prosa.

- É possível falar em alguma unidade entre os contos do livro? Qual seria, para ti, a característica que os aproximaria? Tu os escreveste já pensando em reuni-los em um livro ou foi uma escolha posterior? 
Quando escrevi estes textos, não tive intenção de reuni-los em livro. Foram escritos ao longo de cinco anos, alguns eram publicados no meu blog, outros ficaram guardados por muito tempo sem que ninguém os lesse. A ideia de fazer um livro já existia, e aos poucos fui reunindo esse material e percebendo que alguns deles evocavam imagens muito semelhantes, que traziam frequentemente as mesmas questões, enfim, que transitavam nos mesmos espaços. Creio que eles se aproximam por meio das imagens e dos estados de espírito que os suscitaram, e de temas como a memória e a solidão, principalmente, e também a dificuldade de comunicação e as pequenas tentativas de redenção nesse nosso mundo de hoje.

- Explica um pouco mais o título "Os doentes em torno da caixa de Mesmer". Existe, claro, a história do médico e da caixa magnética. Mas por que essa referência aparece no livro?
Como não existe um fio condutor claro a conectar os contos, pensei desde o início que precisava conformá-los em um título metafórico, que expressasse de algum modo o que se passa com esses personagens. Na universidade, em uma aula sobre arte e loucura, quando estudávamos o desenvolvimento das investigações sobre os processos cognitivos e a criação artística, eu me deparei, em um desvio do tema principal da aula, com um artigo sobre Franz Anton Mesmer, e suas práticas de cura, principalmente esta com a caixa magnética e os doentes aglomerados em torno dela. Estas sessões de mesmerismo, muito disputadas na Europa do séc. XVIII levavam doentes do corpo e da mente a se comprimirem ao redor daquelas caixas a fim de segurar as hastes magnetizadas, formando correntes humanas, em que os pacientes  das primeiras fileiras funcionavam como condutores da cura para os que a eles se agarravam. Esta imagem permaneceu muito forte em mim, a ponto de colecionar reproduções de pinturas e gravuras representando as sessões de mesmerismo. Penso que de uma forma emblemática a nossa contemporaneidade comporta um sem-fim de caixas de Mesmer. Temos as mais variadas promessas de cura: carreira, dinheiro, amor, arte, religião, enfim, todos nós construímos os nossos experimentos de salvação, mas vale lembrar que o objeto da alusão aqui é um experimento criado por um cientista acusado de charlatanismo. Então o título traz essa sombra de ilusão, de propensão à falibilidade.

- Houve alguma mudança da versão destinada ao concurso para a que foi lançada agora pela Modelo de Nuvem?
Sim. A primeira versão do livro, enviada para o concurso Contista Estreante, da FestiPoa Literária e Modelo de Nuvem era um pouco maior. O Marco de Menezes, editor, e a Natalia Borges Polesso, que fez a revisão, contribuíram imensamente para uma versão mais concisa, portanto alguns textos foram retirados e outros novos, que não faziam parte da versão original, mas que dialogavam com a ideia do livro, acrescentados. O livro então foi dividido em três partes (Dentro de Um Feixe de Sol, Pequenos Olhos Sujos e O Fundo do Rio), e creio que cada uma delas comporta os contos por afinidade, ainda que ao longo de todo o livro persistam similaridades temáticas.

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