21 de abr de 2010

Macromundo de Wladimir Cazé

Wladimir Cazé (1976) publicou Microafetos (poesia, Edições K, São Paulo, 2005), A filha do Imperador que foi morta em Petrolina (cordel, Edições K, São Paulo, 2004) e ABC do Carnaval (cordel, Edições K, Salvador, 2009). Publicou o poema "Os pássaros" no suplemento "A Tarde Cultural" (Salvador/Bahia, abril de 2008). Participou do 4º Mayo de Las Letras, em San Miguel de Tucumán (Argentina). Integra o coletivo de escritores Corte, que promove recitais e debates sobre literatura em Salvador. Mantém o blog Silva horrida - Guia de cidades (http://www.silvahorrida.blogspot.com). Cazé estará lançando seu livro no sábado, 24, às 10h, na Letras & Cia.

Macromundo e Microafetos são seus livros de poesia mais recentes. Pode-se dizer que os dois se enquadram na denominação conceito-livro, publicações com poemas enfeixados em torno de uma temática e com perfil estético definido. O que você buscou dizer nesses dois livros, e em que pontos eles se interrelacionam?

Microafetos” e “Macromundo” são os dois únicos livros de poesia que escrevi; foram escritos quase ao mesmo tempo, durante um longo período (de 1996 a 2005, o primeiro; de 1996 a 2009, o segundo) que coincide com meu gradativo aprendizado em poesia. Considero-os livros complementares, na medida em que, enquanto no primeiro predominam figurações de seres dos reinos animal, vegetal e mineral, no segundo o enfoque recai sobre o homem e os amplos espaços do universo. Em ambos, procuro refletir os deslocamentos e os processos de dessubjetivização que marcam nossa época através de uma voz impessoal, que se alterna entre a personificação dos seres inanimados ou animais e a despersonificação do eu lírico.
Você concorda com a opinião de que a poesia tem cada vez menos audiência e leitores? E o que você procura fazer para o seu trabalho de poeta seja difundido além dos círculos literários?

De fato o público de poesia contemporânea é minúsculo. De modo geral, a poesia é hoje uma atividade que interessa e concerne a um grupo muito pequeno de pessoas. Quase contraditoriamente, há uma quantidade crescente de poetas, ao passo que o rigor e a inovação reivindicados como valores-chave pela poesia de invenção pairam como sombras que quase paralisam o debate e a circulação dos textos em ambientes mais amplos. Por outro lado, essa é a grande vantagem da poesia: como não se prende a fins mercadológicos, ela fica disponível para uma reinvenção constante de seus próprios fundamentos, ocupando setores de experimentação do novo e de ousadia interdisciplinar que foram abandonados por outros gêneros literários.
Quanto à minha poesia, com ela busco conciliar uma comunicabilidade mínima (que possa capturar os sentidos tanto do poeta iniciado quanto do leitor eventual) com o legado das minhas influências – a tradição da poesia de invenção brasileira, desde o modernismo, o concretismo e a poesia dita marginal até a liberdade extrema da produção poética dos anos 90 em diante. Essa busca de uma certa simplicidade na poesia passa por um aperfeiçoamento intensivo dos meus poemas, no sentido de tentar excluir todo excesso verborrágico ou virtuosismo gratuito. Passa ainda, às vezes, pelo emprego eventual de estruturas tradicionais, especialmente a estrofe do cordel, que permeia o inconsciente coletivo brasileiro há muitíssimo tempo e oferece uma via de acesso imediata à musicalidade da fala brasileira.
Também tenho procurado frequentar recitais (participo do Corte, um grupo de escritores que organiza rockcitais com a banda Pastel de Miolos, em Salvador/BA) e me apropriar de outras linguagens e ferramentas (como o PDF, o MP3, o Youtube, o blog). São alternativas para a veiculação de textos que, embora não substituam o livro impresso, alcançam um público maior e podem captar a atenção de alguém que, mesmo não tendo o costume de ler livros, ao escutar um trecho ou poema curto se interessa em conhecer melhor meu trabalho.
Como jornalista profissional, você acompanha o que se produz na literatura brasileira contemporânea? Que característica você destacaria mais marcante na produção de poesia atual? Que autores ou estilos você apontaria, dentre aqueles que mais lhe agradam?

Profissionalmente não venho atuando no dito jornalismo cultural, mas sinto necessidade de me manter atualizado, até como alimento e estímulo para minha própria produção. Gosto de estilos e linguagens muito diversas entre si e procuro acompanhar o que está sendo produzido em várias searas. Admiro – entre muitos outros que poderia citar – a metaliteratura de Valêncio Xavier, Henrique Villa-Matas e W. G. Sebald; a narrativa nômade de Antonio Torres, João Gilberto Noll e João Filho; e a prosa meticulosa de Estevão Azevedo, Lima Trindade e Patrick Brock. Em poesia, destaco Claudio Willer, Horácio Costa e Sandro Ornellas.
Cazé, seu trabalho de poeta bebe muito na tradição do Cordel e você produz poesia de Cordel. Como se define o Cordel na contemporaneidade e como ele se insere no contexto literário e se relaciona com as demais linguagens artísticas?

Trabalho com literatura de cordel, mas não só. Considero o cordel um gênero poético ou modelo formal como qualquer outro, tão à disposição do poeta quanto, por exemplo, o haicai, o poema-piada ou o poema sonoro (para citar formatos que cultivo). Para poetas que produzem numa época em que a poesia tem audiências cada vez menores, é vantagem tática poder lançar mão de estruturas textuais que se apresentam ao leitor ou ao ouvinte de um modo com o qual ele está relativamente familiarizado (o que é o caso da estrofe do cordel).
Considero o cordel uma expressão popular dinâmica, que para acompanhar a época se transforma, tanto na temática quanto na linguagem. O folheto de cordel é um formato que permite a convergência de poesia, narrativa, música e arte gráfica: os versos do poema contam uma história; uma musicalidade característica emerge das entrelinhas do ritmo do texto e da leitura em voz alta, com possível acompanhamento de instrumento musical; e a arte gráfica exprime visualmente o poema na ilustração da capa. Além disso, há também a performance do poeta na apresentação da obra em recital. O cordel é hoje literatura urbana multimídia.

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