20 de abr de 2012

Cinco perguntas para Maria Rezende

Maria Rezende é poeta e dizedora. Aprendeu a dizer poemas aos 18 anos na Escola Lucinda de Poesia Viva, com a poeta e atriz Elisa Lucinda. Com outros alunos formou o grupo Te Pego Pelo Verso, que durante dois anos apresentou recitais da obra de poetas como Manoel Bandeira, Adélia Prado, Fernando Pessoa, entre outros. Aos 20 anos se tornou assistente de Elisa em oficinas de poesia falada pelo Brasil, e depois foi professora da Escola Lucinda durante dois anos. Como dizedora, recebeu elogios de nomes como Manoel de Barros, Martha Medeiros e José Saramago. Tem dois livros publicados, Substantivo Feminino e Bendita Palavra , ambos acompanhados de CDs com os poemas falados.

Maria estará ministrando oficina a partir de hoje na 5ª FestiPoa Literária. Conheça melhor a poeta na entrevista abaixo:

1. O que Porto Alegre representa para você?

Porto Alegre é um encontro. A cidade se abriu pra mim desde a primeira vez que estive aí, em 2009, lançando meu livro Bendita Palavra na 2ª FestiPoa Literária. Eu não conhecia ninguém, nem mesmo o Fernando Ramos [organizador da FestiPoa], que descobriu minha poesia no blog do Marcelino Freire, e em quatro dias fiz amigos, ganhei leitores, vendi livros e discos de poesia, fui acolhida e me senti imediatamente em casa. A relação que os gaúchos tem com a literatura é rara e totalmente diferente do que se vê Brasil afora. É um luxo participar da vida cultural da cidade e ser lida por aí.

2. Como nasce em ti o amor pela palavra escrita?

Eu cresci lendo. Livrinhos pra criança, depois romances juvenis, e aos 14 anos a poesia entrou na minha vida pra nunca mais sair. Ler sempre foi garantia de prazer, possibilidade de ampliar o mundo, passe de mágica pra inventar lugares e pessoas que eu nunca conheceria de outro jeito. A poesia ampliou essa paixão trazendo a descoberta da palavra como encantamento, mais do que apenas forma de comunicação. Não era só contar uma história, era botar sentimentos no papel, com precisão, com delicadeza. Esse encanto nunca me abandonou e é a raiz da minha escrita. A poeta que eu sou é, antes de tudo, uma leitora voraz.

3. Poesia para quê?

Pra ilustrar iluminações. Pra chorar sem lágrimas. Pra dar conselho sem parecer pedante. Pra pedir ajuda sem usar o telefone. Pra ler antes de dormir, pra escrever antes de dormir, pra dormir melhor, pras noites de insônia. Pra ler e se sentir intimamente representado. Pra escrever e fazer alguém também se sentir assim - auge da maravilha pra poeta que eu sou: identificação. Poesia porque eu tô viva, porque o mundo não é só isso que acontece aqui em cima.

4. Explique para nossos leitores um pouco do que vai rolar na oficina Bem dita palavra.

Antes de ser poeta eu sou dizedora de poesia. Dizedora é quem conversa o poema, quem diz um verso como quem bate papo, com sentimento mas sem impostação. Aos 20 anos eu aprendi a dizer poemas com a Elisa Lucinda, em uma oficina como essa que agora eu vou dar: cada aluno escolhe um poema, e vamos juntos descobrir a voz de cada um, o ritmo, a emoção, lendo em voz alta, ouvindo outros lerem, buscando o percurso mais íntimo pra no final dizermos nosso poema pra platéia. Decorar um poema é tê-lo no coração, e é esse o caminho que vamos fazer juntos.

5. Ler e dançar: como essas coisas se harmonizam numa festa literária?

Ler é prazer, e descoberta, e liberdade. Parece que se faz só com a mente mas o corpo todo viaja junto, é uma dança silenciosa e muito interna, mas é dança. Dançar pra fora, com música, com gente em volta, é dar férias pra mente, botar a razão pra dormir e ser só movimento. Estar numa festa literária que estimula essa mistura é tudo que eu desejo - afinal nem é segredo nenhum que meu sonho de criança era ser Chacrete...