10 de nov de 2012

Entrevista: Angélica Freitas

Angélica Freitas lança hoje, sábado, 10 de novembro, às 16h, na livraria Palavraria, o seu segundo livro de poemas, Um útero é do tamanho de um punho (CosacNaify). A seguir, entrevista com a poeta.

foto Renata Freitas

Como e quando surgiu a ideia do projeto do livro?
Em 2007, eu me mudei pra Argentina e comecei a conviver com ativistas feministas. Eram muito lúcidas, e, nas conversas, comecei a me questionar mais sobre o feminino. Nunca estive de acordo com o que nos vendem como sendo o feminino, que é, afinal, uma série de comportamentos. Então eu comecei a escrever poemas a partir essa inquietação.
  
O que te motivou a escrever o poema "um útero é do tamanho de um punho"? Como foi a criação dos outros poemas do livro? Houve algum planejamento para que poemas fossem escritos para entrar no livro, foi um trabalho de edição de poemas para afigurarem-se à ideia central do livro?
Depois que uma amiga fez um aborto, fiquei pensando em quem manda, de fato, no corpo da mulher. Comecei a pesquisar textos na internet sobre o corpo da mulher e cheguei a uma frase que ficou dando voltas na minha cabeça: "Um útero é do tamanho de um punho fechado". Uns dias depois, sentei e escrevi o poema. Houve planejamento para o livro, sim, porque fiz um projeto para o programa Petrobras Cultural. Nesse projeto, a mulher era o foco. Ganhei a bolsa há dois anos, e com isso pude escrever a maioria dos poemas do livro. 
                 
A poesia é necessária para provocar deslocamento intelectual/comportamental, ou é desejo da poeta e leitora Angélica Freitas que a poesia possa provocar alguma alteração na percepção do cotidiano de vida de nós leitores de literatura?
Se eu conseguisse fazer isso, ficaria feliz. Acho que a literatura, em geral, precisa provocar.

 Houve deliberada intenção de usar sarcasmo e humor e, em alguns momentos, podemos dizer?, nonsense, para abordar nos poemas a temática de identidade e gênero?
Não, acho que foi o único caminho que me restou, mesmo.

Ao reunir poemas cujo foco é a condição da mulher, houve um risco: poderia deslizar para uma poesia discursiva e de protesto ao abordar as temáticas de gênero e identidade com tanta contundência. Houve alguma hesitação, mesmo temor, em algum momento, a respeito desse risco a ser corrido?
Sim, eu sabia que era um risco. Mas também acredito que devo escrever sobre as coisas que me incomodam. A pergunta era: como fazer isso, ainda mais na forma de poemas? O caminho foi a ironia, o nonsense. Enquanto estava escrevendo o livro, cheguei a me perguntar se o título era muito pesado. É engraçado, tenho a sensação de que minhas amigas argentinas adoraram o título, mas as brasileiras acharam forte demais. Enfim, pode ser impressão. E alguns amigos queridos, homens principalmente, disseram com toda a sinceridade que não gostavam da palavra "útero". Aí chega aquele momento em que tu tem que assumir o risco e bater o martelo. Deixei como estava. Mas não acho de todo ruim desagradar.     

Me chamou muita atenção a muita musicalidade embalando uma leveza e delicadeza de escrita em vários poemas. Como foi a elaboração dos poemas no que diz respeito a esse aspecto "musical", ou seja, o teu trabalho com sonoridade, ritmo, metrificações, pausas para os versos?
Sempre foi meio intuitivo, isso da musicalidade. Na verdade, tudo o que faço em poesia é meio intuitivo, mas não digo isso batendo no peito, não. Leio muito, e já li sobre versificação, mas nunca apliquei regras. Acho que estou lidando com outras coisas quando escrevo. E a música popular sempre foi muito importante pra mim. Ter ouvido o Caetano Veloso, o Tom Zé, o Grupo Rumo, o Itamar Assumpção, o Vitor Ramil, o Nei Lisboa, pra citar só alguns, foi tão importante quanto ter lido o Bandeira, a Ana Cristina César, o Drummond. Depois que conheci o Vitor, e que ele musicou uns poemas meus, fiquei mais atenta à possibilidade de um poema virar canção, e sem querer comecei a fazer uns versos mais cantáveis. Mesmo sem música, parece que eles chegam mais rápido, e com mais intensidade, a quem lê.