7 de nov de 2012

João Gilberto Noll, conto "O cego e a dançarina"


O conto, cujo trecho inicial segue abaixo, publicado no livro "O cego e a dançarina" (1980), de João Gilberto Noll, será lido por Camila Ali e Clarice Müller na próxima quinta-feira, dia 08, na Palavraria, na programação da FestiPoa Literária revisitada e sampleada.

A vida

Armênio mexe nos seus pertences porque é velho, caduco e manco. Surdo: a filha o chama da escada de caracol e ele não quer ouvir, ela diz que ele precisa ordenar melhor seus dias, dormir na hora certa, tomar a sopa ao meio-dia em ponto, acordar com o canto do galo, porque de madrugada não é hora de mexer nos seus pertences, é hora de estar no último grau do sono, dormindo tão profundamente como quem se prepara para a morte.

Armênio foi um homem bonito. Viajou por muitas cidades do Brasil como vendedor de louças de uma fábrica do interior de São Paulo. Em cada cidade uma mulher. A de Porto Alegre arfava tanto de excitação quando o via que seus vestidos se rasgavam. A cada novo encontro um novo vestido, o colo generosamente à mostra, o colar de pérolas, o decote se rasgando e revelando os fartos seios, a barriga, o pélvis eriçado. A do Recife tinha um cacoete, gemia de ansiedade. Tinha por nome Anabela, de belas tinha as mãos que deslizavam pela cabeleira negra a cada gemido. A de Cuiabá tinha um ponto preto na barriga e era canora como um pássaro: cantava de cor várias óperas e a que mais gostava era Madame Butterfly. A do Rio, bem, a do Rio era uma sirigaita cosmopolita que ao ver Armênio dançava o ritmo mais escabelado, tingia os cabelos de ruivo, se dizia de vanguarda e justiceira. A de São Paulo era uma dama quatro cento na, dessas que pouco falam, pouco riem e mostram sem querer uma falha no fundo da arcada inferior direita. Nenhuma tinha filho. Todas esperavam gerar o sucessor de Armênio. Armênio não foi capaz de conceber nenhum. Era tão convulsionado na cópula que geralmente gozava fora da mulher, correndo e gritando pelo quarto. Os vizinhos reclamavam do barulho, mandavam cartas condenatórias para Armênio sua parceira sua prole, condenando os berros e as correrias como coisas do diabo que existe sim em cada ato nosso desmedido e provocador.

(trecho do conto publicado em O cego e a dançarina)