8 de nov de 2012

Os malucos e os livros


Anos oitenta. O João Gilberto Noll já tinha publicado os contos de O Cego e a Dançarina, cuja narrativa Alguma coisa urgentemente virou filme com direito a prêmio em Gramado. O denso romance A Fúria do Corpo, com seus mendigos em Copacabana, circulava muito bem. Seus direitos para o cinema tinham sido adquiridos por Hector Babenco. O Noll começava a brilhar.
Eu era um adolescente, lia muito e, por isso, freqüentava a livraria Sulina na Borges de Medeiros. Foi lá que encontrei o Noll, eu folheava a Poesia Completa do Manuel Bandeira, e ele, uma Clarice Lispector, que já tinha relido umas dez vezes Apresentei-me sem timidez e o chamei para escrever o prefácio de um livro de poemas que levaria uns dois anos para terminar. Antes disso, tornamo-nos amigos, ele foi à minha formatura na faculdade de medicina e colecionamos histórias. Seleciono duas para a antologia desta crônica.
Na primeira tínhamos ido a Gramado, com o poeta carioca Maurício Salles, que decidiu ficar por lá. Noll e eu voltamos no Corcel azul do meu pai e, naquele tempo, pneus furavam com freqüência. Não deu outra, na curva fechada de Igrejinha, e fui trocar. Mas tinha que ficar com o corpo para dentro da estrada, e ao Noll coube avisar quando vinha carro.
Ele avisava, mas, de olho na próxima novela, que beirava a sua cabeça, demorava a prevenir-me. Quase fui atropelado umas três vezes, uma delas por um caminhão que já tinha tirado fininho do Noll e da novela.
Sobrevivemos e, dias depois, ele me ligou porque estava preocupado com um sinal na pele, que gostaria de retirar. Eu fazia estágio de cirurgia na Santa Casa e disse que daria um jeito. O Noll foi lá, menos pelo sinal e mais porque desejava pôr o estabelecimento em uma das cenas do seu próximo livro. Estava tão atento ao cenário que nem se deu conta da notícia: contratados e residentes estavam em greve e não tinha ninguém para realizar o procedimento.
Foi quando a enfermeira propôs que eu mesmo fizesse. Expliquei para ela que estava acostumado a suturar, não operar. Ela me disse que quem costurava, cortava, era a mesma coisa. Perguntei ao Noll se ele topava, e ele, de olho nas balaustradas do pátio interno e mais distraído que na curva, topou.
Foi assim que fiz a minha primeira cirurgia. E a última, antes de me tornar psiquiatra.
O paciente sobreviveu, confirma-o  a bela obra que vem compondo. Eu mesmo retirei os pontos, uma semana depois. Bem no dia em que me entregou os originais de Rastros de Verão, novela frenética que se passa no calor de Porto Alegre em fevereiro. Um dos personagens era um poeta maluco, e o Noll falou que era eu.
Sim, éramos malucos, entre o asfalto e a maca. A vida nos cansava com freqüência, mas nos livros conseguíamos repousar. Para sempre.

Texto escrito pelo poeta Celso Gutfreind em homenagem a João Gilberto Noll, publicado no livro "Dança das palavras".