13 de jul de 2013

O coelho e eu


Laurene Veras escreveu este texto bacana, misto de crônica e reportagem pra contar um pouco sobre o que viu na FestiPoa no dia em que Liniers autografou seus "Macanudos" para centenas de leitores. A ilustração acima, é da própria Laurene.

Valeu, Laurene!

Tenho uma política extremamente restritiva no que diz respeito a filas para me divertir. Funciona assim: se tem fila não é divertido. Quarta-feira, dia 15 de maio, foi um divisor de águas para mim. Normalmente eu diria que perdi um tempão em uma fila, mas nesse caso eu GANHEI um tempão na fila de autógrafos do encontro com Liniers e Fabio Zimbres na Casa de Cultura Mario Quintana. Dá para falar muita coisa sobre o bate-papo ou “palestra” do cartunista argentino, mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de que o Liniers é simplesmente um comediante nato. Não, só porque ele desenha, dentre outras coisas, tiras de humor, não é uma conclusão lógica pressupor que ele seja engraçado. Há muitos escritores, performers e desenhistas de humor que quando se põem a falar “sério” não se apresentam tão divertidos quanto o seu trabalho. Ao final do bate-papo o Fernando - organizador do Festipoa -  anunciou que no dia seguinte o encontro seria entre Liniers e Adão Iturrusgarai, e o argentino brincou dizendo que só iria repetir tudo que já tinha dito naquele dia. Pois olha, eu poderia ver o Liniers contar as mesmas histórias repetidas vezes, porque além de muito divertido, ele tem uma simpatia que é... como eu posso dizer...comovente. Comovente porque uma coisa que deu para sacar é que apesar de se sair muito bem no palco, ele é tímido. Não aquele tímido que trava na hora de falar, mas aquele outro, o nêmesis do tímido retraído: o Liniers é o tímido verborrágico, grandiloquente, contador de histórias e um careteiro digno do Calvin posando para fotografias. Quer dizer, o cara é um personagem! Não admira que desenhe a si próprio como um coelho, aquele personagem existe! Essa timidez não se revela na obviedade, como o humor das suas tiras também não. Ela se mostra em algumas pausas, interjeições, alguns detalhes que me deixaram com uma primeira impressão de que talvez ele não estivesse tão à vontade, de que talvez isso fosse um traço da sua “argentinidade”, de que ele se esforçasse por mostrar uma simpatia que não lhe era natural. Mas também não é isso. Pelo que pude interpretar, e talvez muitos o tenham “lido” de maneira totalmente avessa à minha, o Liniers é aquilo que tá ali, piadista, contador de histórias, esteta, debochado, crítico, ético, lírico, tudo isso e com um toque de mistério. Pronto, desvendei o Liniers, ele não é o coelho, ele é o Misterioso Homem de Negro. Pretensão minha, mas além de tudo o cara também é o queridão que distribuiu autógrafos para aquele mundaréu de fãs e se dispôs a tirar fotografias, desenhando um Fellini no exemplar do leitor ansioso e dando um beijinho na despedida. Esta fã que vos escreve e que muito humildemente comprara um só um exemplar do Bonjour para autografar, foi para casa flutuando como um duende de chapéu pontudo.  Apesar de já estar com minhas faltas na faculdade estouradas, cabulei mais uma aula para poder vê-lo e ouvi-lo de perto e deve ter sido a aula mais “bem matada” na minha interminável lista de ausências acadêmicas. Devorei oBonjour e no dia seguinte falei com o Carlos da Palavraria para pelamordedeus me reservar todos os exemplares de Macanudoque me faltavam. Li tudo de cabo a rabo, faminta por mais Olgaou por Coisas que podem ter acontecido a Picasso, como se de repente eu tivesse me transmutado do (falso) inerte Mandariaga para uma improvável Enriqueta bibliófila crescida num repente e que tivesse, num lapso, se distanciado um pouco do prazer da leitura.
            O mais bacana do FestiPoa, o traço fundamental do evento, sua característica fundadora, é que ele pretende mostrar a literatura despudoradamente em todas as suas linguagens: na música, no texto teatral − o que mescla o texto de palavras com o escrito com o corpo -, na dança, claro, no livro − prosa e poesia − , e como não poderia deixar de ser, nas histórias em quadrinhos. Para quem ainda tem alguma espécie de resistência quanto ao lugar das HQs no âmbito da literatura “séria”, consagrada, basta lembrar que os quadrinhos já fazem um barulho em alto e bom som nos estudos acadêmicos, tanto nas Ciências da Comunicação quanto nas Letras, isso sem mencionar as Artes Plásticas e por aí afora. Will Eisner − amém, amém − uma vez disse que “as histórias em quadrinhos são, ao mesmo tempo, uma forma de arte e de literatura e, em seu processo de amadurecimento, buscam o reconhecimento como um meio ‘legítimo’”. Ou seja, trocando em miúdos, o reconhecimento das HQs enquanto obra de arte legítima já está caindo de maduro. Taí o Liniers para nos lembrar disso! E olha que nem falei da vaca cinéfila ou dos pinguins...

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